A foto acima é muito famosa e eu a detesto. Mostra João Paulo II beijando o Alcorão. Então, a crítica que vou mostrar aqui que um padre jesuíta fez ao Papa Francisco sobre o Islã também serve a outros papas.
Mas vou começar pelo apelo de Asia Bibi. Ela é uma católica do Paquistão que está presa há mais de quatro anos sob acusação de blasfemia contra o Islã, isto é motivo para sentença de morte no País.
Asia Bibi escreveu para o Papa Francisco. É uma carta bonita, em que revela o amor de Bibi por Cristo, celebrando o Natal, e pelo Papa, quando pede a ele que a ajude a sair da prisão.
A lei sobre blasfemia faz parte da Lei Sharia do Islã, que tem fonte no Alcorão e no Hadith (história de vida de Maomé), qualquer um que faz um gesto que seja considerado um insulto ao Islã ou a Maomé corre o risco de sofrer pena de morte. É o que enfrenta Asia Bibi no Paquistão, um país islâmico que não é dos mais fundamentalistas, bem menos radical do que Irã ou a Arábia Saudita, por exemplo. É o caso até da
livraria que foi incendiada na semana passada no Líbano.
Os papas precisam entender o Islã antes de tecer considerações sobre ele ou beijar o Alcorão.
Padre Samir Khalil Kamir é jesuíta, assim como o Papa Francisco. É egipcio e eespecialista em Islã. É considerado um dos maiores conselheiros em matéria de islamismo para o Vaticano. Ele ensina em Beirute, Paris e Roma e é autor de vários livros sobre a relação enter Islã e Cristianismo. Qualquer debate sobre o assunto no Vaticano, envolve sua presença, como mostra este
vídeo do YouTube de um seminário sobre a Primavera Árabe.
Sandro Magister, um dos jornalistas mais conhecidos no mundo em assuntos relacionados ao Vaticano, publicou uma crítica do Padre Samir ao que o Papa Francisco falou sobre o Islã na exortação apostólica
Evangelii Gaudium. Esta crítica saiu inicialmente no site
Asia News.
Padre Samir não poupou suas críticas. Eu diria que ele não criticou, ele detonou a abordagem do Papa Francisco em matéria de Islã.
As partes do Evangelii Gaudium que o padre Samir criticou estão nos parágrafos 252 e 253, descritos abaixo. Disse o Papa Francisco:
252. Neste tempo, adquire grande importância a relação com os crentes do Islã,
hoje particularmente presentes em muitos países de tradição cristã, onde podem
celebrar livremente o seu culto e viver integrados na sociedade. Não se deve
jamais esquecer que eles «professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o
Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia».
Os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos; Jesus
Cristo e Maria são objecto de profunda veneração e é admirável ver como jovens e
idosos, mulheres e homens do Islão são capazes de dedicar diariamente tempo à
oração e participar fielmente nos seus ritos religiosos. Ao mesmo tempo, muitos
deles têm uma profunda convicção de que a própria vida, na sua totalidade, é de
Deus e para Deus. Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com um
compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres.
253. Para sustentar o diálogo com o Islã é indispensável a adequada formação
dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na
sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos
outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer
aparecer as convicções comuns. Nós, cristãos, deveríamos acolher com afecto e
respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países, tal como esperamos
e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países de tradição islâmica.
Rogo, imploro humildemente a esses países que assegurem liberdade aos cristãos
para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé, tendo em conta a liberdade
que os crentes do Islão gozam nos países ocidentais. Frente a episódios de
fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes
do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro
Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.
Padre Samir comenta o que ele viu de bom na exortação apostólica em geral, antes de falar sobre o que o Papa Francisco falou sobre o Islã. Ele também viu coisas boas na parte sobre o Islã. Por exemplo, ele ressalta o pedido do Papa Francisco por liberdade religiosa em terras muçulmanas. No entanto, Samir lembra que o problema principal não é liberdade religiosa em terras muçulmanas, mas liberdade para conversão. E o Papa Francisco não tocou neste assunto.
Samir fez um comentário bem extenso sobre aqueles dois parágrafos e de maneira bem profunda. Eu não tenho tempo para traduzir tudo. Leiam tudo
clicando aqui. Vou apenas fazer um resumo dos pontos principais:
1) Samir critica a ideia de que Alá é misericordioso da mesma maneira que o Deus cristão, como parece dizer o Papa no parágrafo 252. É bastante diferente. A misericórdia de Alá é como um rico dar esmola ao pobre, a misericórdia cristã é se idetificar e se igualar ao pobre, é bem mais profunda.
2) O Papa Francisco diz que o Alcorão manteve ensinamentos cristãos (parágrafo 252). Samir diz que isto é um pouco verdade, mas em geral o Islã tem base em evangélhos apócrifos que não possuem a mensagem cristã;
3) Samir trata da figura de Jesus no Alcorão. Lembra que apesar de ser mencionado, ele não é venerado, nem é Deus, nem foi crucifado ou ressucitou. Ele é apenas um profeta, menor do que Maomé, que é o último e mais importante profeta do Islã. O Alcorão nega os preceitos mais básicos do cristianismo (Trindade, crucificação e ressureição de Cristo, etc.).
4) Samir critica a idéia de que a ética no Islã seja semelhante ao do Cristianismo (parágrafo 252). A ética do Islã é apenas para os fiéis muçulmanos, não se aplica a todos, como é a do cristianismo. É a ética do Islã é legalista, não é voltada para o amor, como é a do cristianismo.
5) Criticando o parágrafo 253 do Papa Francisco, padre Samir ressalta que os fundamentalistas cristãos e islâmicos são bem diferentes.
"Fundamentalistas cristãos não portam armas". Os terroristas islâmicos portam armas e estão apenas replicando a vida de Maomé, que conduziu mais de 60 guerras.
6)
Finalmente o padre Samir critica a última frase do parágrafo 253, em que para o Papa Francisco o entendimento adequado do Islã não geraria violência. Padre Samir diz que isto é apenas um sonho, fora da realidade. A maioria dos muçulmanos pode contra a violência, mas não é correto dizer que o Islã é contra a violência, pois há muita defesa da violência no Alcorão, basta ver os capítulos 2 e 9.
----
William Kilpatrick da revista Crisis Magazine, estimulado pelas palavras do padre Samir, fez uma excelente análise da abordagem do Papa Francisco. Em resumo, Kilpatrick diz que o Papa está mais preocupado em ser bem recebido pelos adversários (ateus, muçulmanos, homossexuais) do que com a doutrina católica.
Infelizmente, Kilpatrick parece certo.