quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Papa Augustiniano Não Sabe o Que Disse Agostinho sobre Guerra?

 


Recentemente, em meio a desavenças com Trump, Papa Leão XIV visitou Hipona, a terra de Santo Agostinho, na Argélia. Santo Agostinho é considerado, desde Hugo Grotius, no século dezessete, o pai da teoria da guerra justa. Agostinho, por sinal, morreu durante uma guerra. Ele morreu durante o cerco dos vândalos.

Muita gente na internet tem ressaltado, que, como Papa Leão XIV é agostiniano, tem doutorado, e "tem um QI de 145", ele certamente deve saber mais sobre a teoria da guerra justa que qualquer outro.

Eu tenho respondido, diversas vezes, no meu X, que isso não é necessariamente verdade.

Santo Agostinho escreveu mais de 100 obras. Sobre diversos assuntos. Na filosofia ou teologia, os temas mais comuns sobre Agostinho não são sobre guerra, mas sobre graça, fé, e por que ele é usado pelo protestantismo.

A tese de doutorado de Leão XIV não é sobre Santo Agostinho. É uma tese burocrática sobre gestão do prior local agostiniano, chama-se “O Ofício e a Autoridade do Prior Local na Ordem de Santo Agostinho". É uma tese de 1987. Faz tempo.

Outra coisa: em geral, quando se lê Agostinho, concentra-se nos dois livros mais conhecidos: Confissões e Cidade de Deus. Nenhum dos dois serve para o tema da guerra. Agostinho não trata de guerra nestes dois livros. Há apenas uma menção em Cidade de Deus sobre a necessidade de guerra por causa do pecado humano.

Santo Agostinho nunca escreveu um livro específico sobre guerra.

Os livros de Agostinho sobre guerra são bem menos conhecidos: Contra Faustum e duas cartas (Carta a Bonifácio e Carta a Marcelino). Nestes livros, pode-se identificar os critérios de guerra justa, que foram adotados por São Tomás de Aquino e pelo Catecismo da Igreja, com alguma diferença no Catecismo, pois um critério que está lá (chance de sucesso), não é agostiniano, nem tomista.

Eu costumo dizer que ao se ler o que disse Agostinho, é mais fácil identificar uma abordagem trumpista do que essa visão de "diálogo", "comunhão com o Islã", "paz para o mundo todo" de Leão XIV.

Por exemplo, disse Agostinho em Contra Faustum (Livro XXII, Capítulo 74):

“Qual é o mal em guerra? Será a morte de alguns que irão morrer em breve, em qualquer caso, para que outros possam viver em paz? Isto é pura antipatia covarde, e não sentimento religioso. Os males reais em guerra são o amor pela violência, a crueldade vingativa, a inimizade feroz e implacável, a resistência selvagem, a ambição de poder, coisas dessa natureza; e geralmente é para punir essas coisas, que é necessário aplicar a força para infligir o castigo, que, em obediência a Deus ou alguma autoridade legal, fazem bons homens empreender guerras.”

Pela vasta produção de Agostinho, um agostiniano pode se concentrar em inúmeros assuntos e permanecer completamente ignorante sobre outros.

Por exemplo, vou contar um caso pessoal. Quando eu decidi fazer uma tese sobre o pensamento de uma filósofa católica sobre guerra, um professor, doutor em filosofia, se prontificou a ser meu orientador. Eu não o escolhi, ele me escolheu. 

Descobri depois que ele era da Opus Dei, e achei muito bom, pois seria mais fácil falar de catolicismo na tese. No entanto, quando ele leu minha versão da tese, ele me disse que São Tomás de Aquino nunca escreveu sobre guerra e que aquilo que eu estava dizendo sobre Santo Agostinho ele nunca tinha ouvido falar.

Eu fiquei estupefato. 

Quando mostrei a Questão 40, da Parte II-II, da Suma Teológica, em que São Tomás de Aquino fala exclusivamente sobre guerra e se fundamenta exclusivamente em Agostinho, no livro Contra Faustum e outros. O professor ficou sem palavras. Só conseguiu me dizer que nunca tinha lido aquilo, apesar de ter me dito que já tinha lido toda a Suma Teológica.

Não pensem que ele ficou bonzinho comigo depois que eu lhe mostrei que ele estava errado, pelo contrário, piorou um pouco a relação. Acadêmicos são muito orgulhosos, infelizmente. Perdi muito tempo tentando explicar o óbvio para ele em Agostinho.

Mas eu o compreendo, não se pode saber tudo diante tanta vasta produção de Agostinho e Aquino. Ele deveria ter sido mais humilde comigo antes de dizer bobagem.

Em suma, não esperem que um agostiniano saiba sobre a teoria de guerra de Agostinho. 


2 comentários:

  1. Ola Dr Pedro.

    Rapaz, eu não sei se dou risadas ou se eu choro. A vergonha alheia e o medo de tudo que vem acontecendo desde Francisco me arrancam a vontade de acreditar no Vaticano. Eita Concílio Vaticano II! O dia em que um grupelho de picaretas revolucionário decidiram enfrentar Deus e roubar a Autoridade da Igreja!

    E aí Dr. Pedro, não sei se você ficou sabendo da recente viagem de Leão XIV a Argélia.
    Li algumas matérias inclusive de sites pró Vaticano, que informam que o papa no início deste mês prestou honras a muculmanos que na revolução islâmica, mataram os cristãos la, inclusive monges, mulheres e crianças.
    O papa foi ao tal do “Maqam Echahid”, monumento que honra terroristas. E debaixo desse monumento tem o tal Museu "El Mujahid. Isso significa Jihadistas.

    Então dr Pedro? Isso tudo não parece loucura?
    Depois que vi o video do Centro Dom Bosco falando asneiras e misturando teologia da infabilidade e muita maluquices, percebi que falta método de formação nessa gente! Os caras vendem livros de história, dão catecismo tradicionalista, e blá-blá-blá, mas se desesperam no campo das ações: santo Deus! Chegam acusar Trump do que o próprio papa tá fazendo! Se escandalizam com a dureza e maus modos de Trump, mas silenciam diante de coisas tenebrosas praticadas pelo proprio papa!

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  2. Por vezes, prefiro não saber todos os detalhes. Saber da história da Igreja e da Europa contra o Islã e ver os papas, desde João Paulo II, quererem meio que abençoar o Islã já me traz muitas dores.
    Abraço

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Certa vez, li uma frase em inglês muito boa para ser colocada quando se abre para comentários. A frase diz: "Say What You Mean, Mean What Say, But Don’t Say it Mean." (Diga o que você realmente quer dizer, com sinceridade, mas não com maldade).