sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que Max Weber estava errado. Por que América Latina é Pobre e América do Norte é rica?


Outro dia, eu critiquei aqui a Revista Veja por usar Max Weber contra o Papa Francisco. É uma coisa muito popular achar que Max Weber estava certo quando considerou que o protestantismo é a base filosófica/religiosa para o capitalismo, o que justificaria que a América Latina católica é pobre e a América protestante é rica.

Nós precisamos aprender a criticar esta abordagem de Max Weber que é  errada tanto historicamente, como filosoficamente, como teologicamente.

Para começar, a América protestante rica é apenas os Estados Unidos, pois o Canadá é (e foi) católico na maioria. 

Hoje, eu li um texto de Samuel Gregg que é parte de seu livro Tea Party Catholic. O texto trata da abordagem equivocada de Max Weber.

Vocês podem ler o texto completo clicando aqui, mas aqui vão os pontos dele:

1) Max Weber errou sobre o "espírito protestante", não havia nada na abordagem teológica protestante calvinista que dissesse que ficar rico era demonstração de ser predestinado por Deus para ir para o céu. Gregg mostra que a Confissão de Fé de Westminster (confissão de fé do calvinismo) nem tratou disso, a profissão de cada um para o calvinismo deveria servir a Deus e não para acumular riquezas;

2) Durante séculos na Idade Média, antes da reforma protestante, os países católicos desenvolveram o sistema bancário, vários métodos comercias e inúmeras tecnologias. O espírito comercial precedeu a reforma protestante em pelo menos dois séculos.

3) Já no século 11, cinco séculos antes da reforma protestante, aparecia a expressão em latim Deus enim et proficuum (Por Deus e lucro) em livros de comerciantes italianos e holandeses.

4) Muito antes da reforma protestante, os padres em seus confessionários estavam tratando de questões comerciais como preço justo, usura, taxa de juros, etc.

5) Padres jesuítas e dominicanos precederam Adam Smith na análise da importância do dinheiro e do livre comércio, como Francisco de Vitória e Juan Maria. 

6) O historiador Jacques Delacroix disse que os ricos da Holanda e Alemanha, países que Weber baseou para dizer que o protestantismo significava capitalismo, eram católicos em sua maioria.

7) O que explica o baixo desenvolvimento da América Latina não o é o catolicismo e sim o absolutismo (poderio maior do estado) e o mercantilismo (doutrina econômica que apoia o subsídios às exportações e tarifas elevadas para importação, coisa que o Brasil faz até hoje, somos o país mais fechado às importações do mundo,segundo o Banco Mundial, se olharmos a relação importações/PIB).

---

Eu acrescentaria que vários mosteiros já praticavam (e praticam ainda) o espírito ascético que Weber achava que era uma vertente apenas do protestantismo.

O ascetismo trata como comedimento ou procura anular os prazeres da carne. Para Weber, os protestantes faziam isso e por isso poupavam dinheiro, ajudando no crescimento econômico. Bom, vários mosteiros só trabalhavam (e ainda trabalham), sem qualquer gasto com prazeres da carne, muito antes da reforma, e produziam (e produzem) vários bens (como os melhores vinhos e cervejas do mundo)

---

O livro de Gregg, pelo título do livro, deve tratar de unir o catolicismo com o livre mercado (capitalismo), contra o estatismo.

Bom, não sei até que ponto ele vai nessa união, mas certamente o catolicismo não é contra o livre mercado per si, mas tem também outras preocupações, como com a alma humana.

Deve ser um livro bem interessante.


(Agradeço a indicação do texto de Samuel Gregg ao site Big Pulpit)

4 comentários:

juscelino disse...

Boa tarde.
É meio que fora do assunto mas tem uma lógica tremenda nas "falas" a seguir. Como entendo que concorda em relação o assunto é um texto que merece até um post seu..:
Olavo de Carvalho
Já escrevi tempos atrás, mas volto a resumir: Um dos princípios fundamentais do Direito é que ninguém pode ser obrigado a fazer o impossível ("ad impossibilia nemo tenetur"). A forma mais perfeita da impossibilidade é a contradição: por exemplo, estar deitado e de pé ao mesmo tempo. A PL-122 entra em flagrante contradição com o Art. 208 do Código Penal, que define o crime de "ultraje a culto": "Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa." Nenhum Estado pode proteger por igual a consciência religiosa e o direito de achincalhá-la ou criminalizá-la como "homofóbica". Se um religioso cita um versículo da Bíblia que condena a sodomia e um gayzista o acusa de "homofóbico" por isso, ambos terão cometido delitos: o gayzista será condenado por ultraje a culto e o religioso por crime de homofobia. Leis contraditórias anulam-se uma à outra, praticamente impedindo o juiz de decidir ou forçando-o a fazê-lo segundo qualquer preferência arbitrária do momento, isto é, a cometer injustiça sempre. Aprovada a PL-122, o Estado terá se concedido o direito de promulgar leis mutuamente contraditórias, isto é, de tornar o impossível obrigatório. A partir desse instante, todo o edifício legal ruirá inevitavelmente. Isso -- e não o mero ataque à liberdade religiosa -- é o aspecto pior, mais destrutivo e quase demoníaco dessa proposta. A PL-122 é como um vírus de computador planejado para suprimir, de um só golpe, toda noção de direito ou de obrigação legal. O simples fato de que a proposta seja aceita para discussão já abre um precedente para esse fim, precedente que deveria e poderia ser bloqueado "in limine" mediante sentença declaratória do STF, sentença que nenhum moralista se lembrou de pedir até agora, tão embriagados todos se encontram com a retórica da "defesa da liberdade religiosa". Para que entrar nesse particular, alimentando mais ainda a discussão, quando se poderia matar a questão no terreno simples e neutro da lógica jurídica?

SE ACHAR QUE VALE ESTÁ AI.
Abraços.

Pedro Erik disse...

Interessante, Juscelino
O grande Olavo tem que parar apenas de escrever atacando toda vez que escreve.
Ele mostrou uma contradição legal.
Mas a questão de liberdade religiosa é mais importante
Para começar, quantas contradições legais ja existem no ordenamento jurídico brasileiro?

avmss disse...

Obrigado pelo post Pedro. Isso apenas faz lembrar que todas as verdades que estão contidas no protestantismo são vindas do catolicismo.
Li outro disse desses "Raízes Históricas da Crise Política Brasileira" do grande jurista católico José Pedro Galvão de Souza. No livro ele vai fazendo comparações entre a América Anglo-Saxônica, a América Portuguesa e a América Espanhola. Mostrando que o sucesso dos EUA não tem a ver, porque eles são abstratamente uma República Federativa, mas sim porque eles respeitaram sua história, suas tradições e a formação de seu povo. Enquanto o Brasil de 1889 estava justamente indo na contra-mão daquilo tudo que os americanos do norte fizeram, chegando a ter o nome mudado para "Estados Unidos do Brasil" em 1891, para se ver que eles copiaram apenas o superficial e não o essencial com os valores certos.
O livro é muito bom e importante, te recomendo a ler.

Abraço

Pedro Erik disse...

Obrigado, grande avmss.

Para mim, o sucesso dos Estados Unidos é explicado pela Declaração de Independência quando eles se declararam abaixo de Deus enquanto a revolução francesa quis abandonar Deus.
Grande abraço amigo.