quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Por Que a Ciência Acabou no Mundo Muçulmano? (Parte 1)

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Caros, ontem li um excelente texto explicando o declínio da ciência no mundo muçulmano. Vou resumí-lo aqui em três partes.

Mas, primeiro, vejam no mapa em verde acima onde está o mundo muçulmano. São 47 países, alguns deles com 100% da população sendo muçulmana, como Arábia Saudita, Malásia e Somália. No texto, por vezes o autor, por uma questão de disponibilidade de dados, alterna entre mundo muçulmano e mundo árabe. Eles são diferentes. Mapa do mundo árabe abaixo.

 

O texto foi escrito por Hillel Ofek no site The New Atlantis. Vou traduzir aqui os pontos prinicpais.
Primeiro, Ofek começa falando que a era de ouro da ciência em países muçulmanos foi entre os século 8 e 13. Durante estes séculos o mundo árabe estava na frente na condução da ciência mundialmente. Mas desde então houve uma devastação completa e no momento praticamente não há ciência nos países de maioria muçulmana. O mundo tem em média 41 cientistas, engenheiros e técnicos para 1000 habitantes, no mundo muçulmano, há 9 em cada 1000. Todos os países muçulmanos contribuem em 1% para a literatura científica, o mesmo que a Espanha sozinha. A Espanha traduz mais livros em  1 ano do que os países muçulmanos traduziram em 1000 anos (isto mesmo, mil anos).

Um ponto muito importante levantado por Ofpek é de que o declínio científico é normal na história da humanidade. O Ocidente é o único caso de sucesso sustentável. Mas o declínio científico no mundo muçulmano é peculiar em relação aos outros declínios.Vejam o que ele diz (traduzo em azul):

Given that Arabic science was the most advanced in the world up until about the thirteenth century, it is tempting to ask what went wrong — why it is that modern science did not arise from Baghdad or Cairo or Córdoba... but it is important to keep in mind that the decline of scientific activity is the rule, not the exception, of civilizations. While it is commonplace to assume that the scientific revolution and the progress of technology were inevitable, in fact the West is the single sustained success story out of many civilizations with periods of scientific flourishing. Like the Muslims, the ancient Chinese and Indian civilizations, both of which were at one time far more advanced than the West, did not produce the scientific revolution. 

Nevertheless, while the decline of Arabic civilization is not exceptional, the reasons for it offer insights into the history and nature of Islam and its relationship with modernity. 

(Dado que a ciência árabe era a mais avançada no mundo até o século 13, é tentador se perguntar o que deu errado - por que a ciência moderna não surgiu em Bagdá ou Cairo ou Córdoba...mas é importante ter me mente que o declínio da atividade científica é a regra, não a exceção, das civilizações. Enquanto é comum assumir que a revolução científica e o progresso tecnológico era inevitável, de fato o Ocidente é o único caso de sucesso sustentável entre muitas civilizações que tiveram florescimento científico. Como os muçulmanos, os antigos chineses e as civilizações da índia,  que também tiveram em algum momento histórico maios avanço tecnológico que o Ocidente, não produziram a revolução científica.

Todavia, enquanto o declínio da civilização árabe não é excepcional, as razões para este declínio oferecem importantes insights para a história e a natureza do Islã e a sua relação com a modernidade. )

O autor coloca também pontos importantes que deve-se ter em mente para se considerar a ciência no mundo muçulmano:

1) Os cientistas/filósofos importantes da era de ouro não necessariamente eram árabes muçulmanos. A maioria dos pensadores não era nem etnicamente árabe. Os muçulmanos eram minorias nos países árabes até o final do século 10;

2) Deve-se lembrar que a ciência no período medieval era bem diferente da ciência moderna. Eles estavam mais preocupados com questões filosóficas, e não tecnológicas. A ciência moderna despreza questões metafísicas na busca pelo conforto e prazer.

3) Há duas razões que levam a fazer sentido se referir a atividade da era de ouro como árabe: i) os trabalhos filosóficos e científicos foram traduzidos para o árabe, que se tornou a língua dos estudiosos da época, qualquer que seja a etnia do cientista; ii) o termo "ciência islâmica" é bem menos correto, porque muito pouco é conhecido sobre a formação social e religiosa dos pensadores que escreviam em árabe.

Pensadores árabes fizeram contribuições para a filosofia, astronomia, medicina, química, física e matemática.

Costuma-se dizer que estes pensadores inventaram a álgebra. Ofpek considera que isso é basicamente verdade. O persa al-Khwarizmi, inspirado por trabalhos gregos e indianos, escreveu um livro no século 7 que deu título de Álgebra, no qual como resolver questões práticas relacionadas ao comércio, a herança, ao casamento e a emancipação de escravos, usando matemática. O livro se tornou a fonte primária da álgebra.

Na medicina, temos Rhazes (ou al-Razi) que nasceu em Teerã no século 10 e estudou em Bagdá. Rhazes se tornou diretor de dois hospitais, identificou a varíola e o sarampo e escreveu tratados que se tornaram influentes além do Oriente Médio. Ele foi o primeiro a descobrir que a febre é uma ação defensiva do organismo e foi autor de uma enciclopédia de medicina que teve 23 volumes.

A medicina no mundo árabe também teve avanço com o filósofo Avicenna (ou Ibn-Sina) que viveu no século 11. Ele escreveu um Cânone de Medicina que se tornou obrigatório entre os médicos da região e foi traduzido para o latim. O Cânone é uma compilação de conhecimento médico e testes de drogas, e também incluem as próprias descobertas de Avicenna como a relacionada a infecção da tuberculose.

Destaca-se também al-Farabi,  Alhazen e Averroes. Al-Farabi (ou Alpharabius, morreu em 950 d.C) era um pensador de Bagdá  que escreveu sobre muitos assuntos (física, psicologia, alquimia, cosmologia, música, etc.). Ele era considerado pelos arábes o segundo filósofo, só atrás de Aristóteles. Alhazen (ou Ibn al-Haytham), do século 11, era físico. Sua maior contribuição foi em ótica, mas há escritos sobre astronomia, matemática e engenharia. Averroes (também conhecido como Ibn Rushd), que viveu no século 12, é o mais renomado cientista da era de ouro. Ele foi filósofo, teólogo, físico e jurista, muito conhecido pelos seus comentários aos textos de Aristóteles.

Amanhã continuo...



(Devo o achado do texto ao site New Advent)


2 comentários:

Sté disse...

Muito bom, adorei!!!! Etava estudando sobre o assunto e encontrei seu post, sensacional!

Pedro Erik disse...

Obrigado, Sté, também gosto muito do assunto. Se puder, envie seu trabalho depois.

Abraco,
Pedro Erik