Li excelente texto do padre Michael Rennier, a explicar o que é paz. Como é bom ver o clero católico entender claramente o que é a paz e lembrar que Cristo disse que veio trazer a espada. Quase todo domingo, nas homilias, os padres confundem paz com a ausência de conflito externo.
Sempre lembro que a guerra é fácil de identificar e que a paz só é encontrada na luz divina. Mas o padre Rennier foi muito mais didático e explicou que "a paz deve ser ganha na batalha".
Traduzo abaixo o texto do reverendo Michael Rennier
A paz deve ser conquistada na batalha
Por que a paz não é meramente a ausência de conflito e como alcançá-la
Reverendo Michael Rennier
27 de setembro de 2026
Há duas semanas, nosso Introito da Santa Missa focou na misericórdia. Na semana passada, foi a vez da justiça. Agora chegamos a uma súplica pela paz: “Da pacem, Dómine, sustinéntibus te / Dai paz, Senhor, àqueles que em Vós esperastes”.
Existem indústrias inteiras focadas em alcançar a paz interior. Elas vendem com prazer retiros, aulas de ioga ou livros de autoajuda. Artistas musicais cantam sobre dar uma chance à paz e atores se pronunciam sobre o assunto em cerimônias de premiação. A paz gera movimentos de protesto, muitas vezes movimentos ironicamente agressivos, e esses movimentos são retratados com detalhes hagiográficos nos livros de história. Creio que todos no planeta concordariam que alcançar tanto a paz interior quanto a paz entre as nações seria um ideal. O curioso é que todos a desejam, mas poucos realmente a possuem. Estamos tão inquietos e violentos como sempre.
Há uma razão para essa desconexão. Fundamentalmente, não entendemos o que é a paz, e por isso a buscamos de maneiras completamente equivocadas. Paz não é a ausência de conflito. Nosso Senhor, Rei da Paz, diz que vem trazer a espada. Este é um daqueles ditos seus que descartamos, mas não deveríamos, pois é a chave para alcançarmos a paz de fato.
Primeiramente, devo observar que não "alcançamos" a paz, precisamente, porque, como todas as virtudes, ela é um dom de Deus. Nosso papel é cooperar com esse dom. A paz vem somente de Cristo. Ela não será lida em um livro de autoajuda. Não se limita aos raros momentos em que nos retiramos para um retiro espiritual. As virtudes são cumulativas. Elas nos levam a um reino de plenitude. Não faz sentido pensar na paz – uma virtude – como uma ausência, como se afastar-se da vida cotidiana, dos conflitos, do estresse e assim por diante, fosse suficiente para nos conceder a paz.
A paz é um hábito positivo voltado para o bem, portanto, devemos nos preocupar com o que a paz é, e não com o que ela não é. Se prestarmos atenção à liturgia da Igreja, isso fica claro: misericórdia, justiça e, então, paz. Este é um dom que pedimos: viver em paz interior e no mundo, algo que buscamos praticando obras de misericórdia e nos conduzindo à justiça.
Há um antigo ditado romano: “Igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum / Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Isso é um convite à batalha. Quando o sumo sacerdote emergia do Santo dos Santos no Dia da Expiação, após ter feito o sacrifício da reconciliação que trouxe paz à nação, ele o fazia com sangue nas mãos. Ele emergia carregando o castigo, e esse castigo era colocado sobre o bode expiatório. Quando Cristo completou o sacrifício da Expiação da Nova Aliança na Cruz, Ele nos reconciliou com o Pai, e o fez entrando na batalha. Ele conquistou a paz. Ele derramou misericórdia e satisfez a justiça, e é por isso que a Cruz, o lugar da batalha onde o pecado e a morte são vencidos, é a fonte da paz.
Para nós, é exatamente a mesma coisa. A paz não é conquistada pela ausência de conflito, mas sim através das atividades do nosso dia a dia. Pensamos que, quando finalmente pudermos nos aposentar, quando os filhos crescerem e saírem de casa, quando alcançarmos a segurança financeira, quando o presidente ou o Papa mudar, finalmente encontraremos a paz. Mas precisamos conquistar a paz lutando por ela. Não esperamos a completa ausência de tudo para encontrá-la. Afinal, mesmo assim, ainda estarei preso a mim mesmo, e se não estou em paz agora, provavelmente é por causa de alguma insatisfação ou desordem dentro de mim. Meu palpite é que, se não consigo estar em paz agora, com todas as inúmeras bênçãos que Deus me concedeu, então não estaria em paz nem mesmo se escapasse para algum tipo de existência ideal. Sempre encontraria algo que me preocupasse.
Suspeito que muitos de nós sejamos viciados em problemas. Nós nos alimentamos do estresse e gostamos de projetá-lo para fora, como se fôssemos os árbitros da paz em um mundo caótico e todos precisassem apenas nos ouvir, mas, na verdade, provavelmente somos o epicentro da perturbação.
Então, como podemos realmente trabalhar para alcançar a paz verdadeira em nós mesmos e no mundo?
Santo Agostinho diz que a paz é a “tranquilidade da ordem”. O pecado desordena, e é por isso que cria uma inquietação dentro de nós. Ansiamos por aquilo que não podemos mais ter. Isso significa que, antes de podermos escolher a paz, devemos fazer outra escolha, muito mais importante: escolher Cristo. É assim que restauramos a ordem. “Nossos corações estão inquietos e não descansarão até encontrarem repouso em Ti”, escreve Agostinho.
A paz substitui a inquietação somente quando estamos ordenados a Deus. Nós o amamos e somos amados por Ele, e este é o início da paz. Essa reordenação, à medida que se manifesta em nossas vidas, é a prática da misericórdia e da justiça. Essas virtudes nos permitem refletir a paz interior que conquistamos por meio de Cristo em nossos relacionamentos com os outros. Se estivermos orientados para o amor de Deus, também estaremos orientados para o amor ao próximo.
Você percebe como a paz é robusta e poderosa quando a compreendemos corretamente? Ela não surge com base em circunstâncias externas. Não é destruída pelas dificuldades e problemas da vida. Ela é mais forte do que tudo isso porque está orientada para o amor de Deus. Ela transcende e nos eleva junto com ela, o que significa que podemos cultivar a paz em meio a quaisquer circunstâncias.
Espero que isso não seja muito direto, mas talvez possamos listar as circunstâncias que não devem nos roubar a paz:
1) Adversidades no dia a dia. Não importa o que aconteça, sejam problemas pequenos como o trânsito ou grandes como problemas familiares, financeiros ou de saúde, ainda temos Cristo e Ele sabe do que precisamos.
2) As ações de outras pessoas. Ninguém tem o direito de ditar a sua paz ou a sua busca pela paz. Nós nos submetemos somente a Cristo, e Ele será a nossa força e guia na nossa luta pela paz.
3) Nesse sentido, nossas próprias falhas não devem destruir a nossa paz. Não somos perfeitos, então, quando falhamos, isso não deve nos arruinar; deve nos motivar. Vá à confissão. Reaproxime-se de Deus. Tente novamente. Paz significa aceitar a responsabilidade, mas lutar incansavelmente para vencer, unindo-nos à Cruz.
“Fiat pax in virtúte tua”, diz o Salmista (no Gradual), “Que a paz reine em teu interior”. Que haja paz na Igreja, pois este é o tabernáculo do Senhor. Este lugar é a fonte de toda a nossa tranquilidade, de toda a nossa felicidade.
Encerro com a imagem da leitura do Evangelho do paralítico sendo levado à presença de Nosso Senhor para ser curado. Ele é conduzido a esse encontro por seus amigos. Este é o dom deles, encorajar e capacitar seu amigo caído – e podemos entender, aqui, sua enfermidade física como uma metáfora para a desordem do pecado – a entrar na presença do amor divino. Uma vez lá, sua vida é restaurada pela graça. Esta é a paz: habitar na casa do Senhor para sempre, amar a Cristo e nos submeter completamente ao seu amor. Quando o desespero se instala em nós, quando acordamos à noite ansiosos e tememos pelo futuro, por nós mesmos ou por nossos filhos, entramos em sua presença e descansamos, e seremos pacíficos, curados e livres.
