Bispo Robert Mutsaerts, dos Países Baixos, escreveu uma Carta Aberta ao Pppa denunciando o Sínodo da Sinodalidade. A Carta está realmente excelente. Como se diz de um aluno que acerta todas as questões de uma prova: bispo Mutsaerts gabaritou!
Traduzo abaixo:
Carta Aberta a Sua Santidade o Papa Leão XIV – pelo Bispo Robert Mutsaerts
Muitas vezes publicámos os grandes textos do Bispo Rob Mutsaerts (Auxiliar de ’s-Hertogenbosch / Bois-le-Duc), Países Baixos. Acaba de publicar (em inglês e em neerlandês) uma carta aberta a Sua Santidade o Papa Leão XIV sobre a necessidade de preocupação com a salvação das almas no meio da confusão da sinodalidade e de outras tendências.
Santo Padre,
Com reverência pelo ofício que Vos foi confiado como sucessor de São Pedro, e em comunhão com a Igreja que Cristo edificou sobre os apóstolos, dirijo-Vos esta carta aberta. Não o faço de ânimo leve. O que me leva a pronunciar estas palavras publicamente é uma preocupação que transcende, em última análise, toda e qualquer outra consideração eclesial: a salvação das almas. Salus animarum suprema lex — a salvação das almas é a lei suprema. A minha pergunta é simples e sincera: o processo sinodal ajuda realmente a aproximar as almas de Cristo e da salvação eterna? Essa é, para mim, a questão decisiva.
Santo Padre, tenho plena consciência de que o ofício petrino comporta uma responsabilidade da qual alguém que se encontra fora desse ofício só pode ter uma vaga noção. Precisamente por esta razão, escrevo estas palavras não por falta de reverência para com o ofício papal, mas por amor a esse mesmo ofício. Afinal, Pedro recebeu de Cristo não só a missão de unir os irmãos, mas também de os confirmar na fé: “E tu, quando te convertires, confirma os teus irmãos.” Em última análise, o mundo pouco ganha com uma Igreja que se limita a repetir o que o próprio mundo já pensa. Precisa de uma Igreja que o aponte para Cristo, com amor mas sem medo.
A minha preocupação relativamente ao Sínodo sobre a Sinodalidade deve ser lida nesta luz. E, acima de tudo, pergunto-me o que tudo isto significa para o simples fiel que espera da sua Igreja não um processo permanente, mas clareza sobre o caminho para Deus.
Esta carta não é, portanto, uma acusação contra pessoas. Nem pretendo negar as boas intenções de muitos que se dedicaram sinceramente ao processo sinodal. As boas intenções merecem reconhecimento. Mas as boas intenções não nos dispensam do dever de examinar os frutos. Cristo próprio nos deu um critério simples para isso: “Pelos seus frutos os conhecereis.” Por isso, creio que, após anos de consultas sinodais, reuniões, relatórios e documentos, chegou o momento de perguntar abertamente quais são esses frutos. Não por cinismo, mas por amor à Igreja. Não por nostalgia de um passado idealizado, mas por preocupação com o seu futuro. E não para travar uma batalha político-eclesial, mas porque por detrás de todas as discussões se encontra uma realidade infinitamente mais importante: a salvação eterna das almas que Cristo confiou à sua Igreja. Por essa preocupação, Santo Padre, apresento-Vos a seguinte reflexão.
O Sínodo sobre a Sinodalidade
Quem julgar o Sínodo sobre a Sinodalidade unicamente com base nos seus próprios objectivos pode facilmente escrever uma história positiva. Houve escuta. Houve fala. Milhares de pessoas foram consultadas. Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos reuniram-se. Falou-se de comunidade, participação e missão. Até emergiu um novo vocabulário eclesiástico: sinodalidade, escuta, discernimento, participação, conversa no Espírito, pôr processos em movimento. Mas pode-se também ver a mesma história a partir de uma perspectiva completamente diferente. Permitam-me apenas formular a pergunta desconfortável: O que é que tudo isto realmente produziu? Não: quantas reuniões foram organizadas? Não: quantos relatórios foram escritos? Não: quantas pessoas participaram? Mas: a fé tornou-se mais forte? Cristo foi proclamado com mais clareza? A identidade católica aprofundou-se? Mais pessoas se converteram? A Missa dominical é mais frequentada? Há mais vocações sacerdotais? A catequese tornou-se mais poderosa? Surgiu maior reverência pela Eucaristia? O ensinamento moral da Igreja tornou-se mais claro? Aumentou a coragem missionária?
Quando se formulam tais perguntas, é impossível considerar o Sínodo um sucesso. Entretanto, há ainda outra coisa a considerar. O empreendimento sinodal não está verdadeiramente concluído. A fase oficial de implementação continua e, através de reuniões diocesanas, nacionais e continentais, deve culminar numa assembleia eclesial em Roma em Outubro de 2028. Em Maio de 2026, o Vaticano publicou novamente um extenso roteiro para isso. Isso torna a crítica ainda mais pertinente. O que começou como um sínodo de 2021–2024 ameaça tornar-se uma forma permanente de governação.
Um sínodo sobre um sínodo
O primeiro aspecto notável já está no nome: Sínodo sobre a Sinodalidade. Tradicionalmente, um sínodo era convocado porque a Igreja precisava de falar sobre alguma coisa. Sobre evangelização, matrimónio e família, sacerdócio, Eucaristia, Escritura, uma heresia, uma crise pastoral ou um problema concreto. No sínodo sobre a sinodalidade, o próprio processo é tornado o assunto. Poder-se-ia compará-lo a uma reunião que se convoca interminavelmente para discutir como realizar reuniões daqui para a frente.
A Igreja conhece concílios e sínodos desde a Antiguidade. Os apóstolos reuniram-se em Jerusalém. Os bispos deliberavam uns com os outros. Os papas consultavam os bispos. Os grandes concílios ecuménicos são impensáveis sem consulta eclesial conjunta. Mas isso é algo diferente da sinodalidade como paradigma eclesial permanente. O sínodo clássico era um meio. No discurso sinodal contemporâneo, a sinodalidade ameaça tornar-se um fim em si mesmo. E é precisamente aí que começa o problema, numa perspectiva católica tradicional.
A Igreja não é uma conversa, mas uma realidade recebida
Porque a Igreja não começa com o nosso diálogo. Começa com Cristo. Isso parece evidente, mas tem consequências de grande alcance. Cristo não criou um grupo de discussão. Chamou apóstolos. Deu-lhes autoridade. Enviou-os a proclamar, baptizar e ensinar: “Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações.” A direcção é fundamental a este respeito. A fé não nasce porque a Igreja primeiro inventaria o que as pessoas acreditam e depois destila uma convicção comum de todas essas experiências. A fé foi recebida. Paulo usa constantemente palavras como receber, transmitir e preservar para isso. A Igreja possui a Revelação não porque a concebeu, mas porque a recebeu. Isto significa que o cristianismo não pode, na sua essência, ser democrático. Não porque a democracia como forma de governo seja má, mas porque a verdade não nasce de uma votação maioritária. Se amanhã 90 por cento dos católicos deixassem de acreditar na presença real de Cristo na Eucaristia, Cristo não estaria menos verdadeiramente presente. Se 80 por cento rejeitassem uma determinada doutrina moral, essa doutrina não se tornaria automaticamente falsa. A verdade não é produzida por consenso. Isso constitui a primeira grande área de tensão em torno do projecto sinodal.
Escutar: a quem?
Uma palavra-chave ao longo de todo o processo foi a escuta (como se nunca o tivéssemos feito). Em si mesma, não há nada a objectar. Um bispo deve escutar. Um sacerdote deve escutar. Os cristãos devem escutar-se uns aos outros. Um pastor que nunca escuta o seu rebanho não é um bom pastor. Mas a pergunta segue-se imediatamente: A quem deve a Igreja escutar acima de tudo? A resposta tradicional é: a Cristo, à Escritura, à Tradição Apostólica, aos santos, ao testemunho de vinte séculos de cristianismo, ao Magistério. E, evidentemente, também aos fiéis.
Em certos textos sinodais, porém, a ordem parece ser facilmente invertida. Começa-se com as experiências, desejos, frustrações e expectativas do homem contemporâneo e depois pergunta-se como a Igreja deve responder a eles. Isso parece pastoralmente apelativo, mas contém um perigo. Porque o que acontece quando os desejos do homem moderno chocam com o Evangelho? Então não é o Evangelho que deve mudar; é o homem que deve mudar. No cristianismo, isso chama-se conversão. E precisamente essa palavra é ouvida notavelmente pouco em muitas discussões eclesiais modernas.
O grande ausente: a conversão
Aqui reside a fraqueza mais profunda de todo o projecto. A Igreja não existe primordialmente para afirmar as pessoas no que já são. Existe para as conduzir a Cristo. As primeiras palavras da pregação pública de Jesus não são: “Dizei-Me primeiro como vos sentis em relação às actuais estruturas da Igreja.” Mas: “Convertei-vos e acreditai na Boa Nova.” Isso é consideravelmente menos burocrático. E consideravelmente mais radical.
A Igreja dos Mártires não mudou o mundo romano organizando reuniões de escuta sobre a questão de como os romanos poderiam experimentar a comunidade cristã de forma mais inclusiva. Ela proclamou Cristo. Pedro proclamou Cristo. Paulo proclamou Cristo. Francisco proclamou Cristo. Domingos proclamou Cristo. Francisco Xavier proclamou Cristo. João Maria Vianney proclamou Cristo. Madre Teresa proclamou Cristo. João Paulo II proclamou Cristo. Eles escutaram indubitavelmente as pessoas. Mas a escuta nunca foi o ponto final. O ponto final era a conversão a Cristo.
O elefante na sala da assembleia sinodal
Além disso, há uma discrepância curiosa entre os problemas longamente discutidos no processo sinodal e a crise real em que se encontra particularmente a Igreja ocidental. Os problemas fundamentais da Igreja nos Países Baixos, na Bélgica, especialmente na Alemanha, mas também em grande parte da Europa Ocidental, não são difíceis de reconhecer. As igrejas estão a esvaziar-se. As paróquias estão a ser fundidas. Os mosteiros estão a desaparecer. As ordens religiosas estão a envelhecer. O conhecimento da fé católica está a diminuir. A confissão praticamente desapareceu para muitos católicos. O número de vocações sacerdotais permanece baixo em muitos lugares. Muitos baptizados quase já não acreditam em verdades essenciais da fé. Entre vastos grupos de católicos, a vida sacramental enfraqueceu gravemente. Diante disso, esperar-se-ia fundamentalmente que uma operação eclesial global abordasse primordialmente uma questão: Como podemos reconquistar o mundo para Cristo?
Mas muita atenção se concentra em estruturas, participação, processos de decisão, responsabilidade das mulheres, inclusividade, relações de poder e no modo de funcionamento dos órgãos eclesiais. Estes podem ser temas legítimos. Porém, uma casa em chamas tem prioridades diferentes das questões de natureza doméstica.
Uma lei de Parkinson eclesial
As instituições que perdem de vista o seu propósito original começam muitas vezes a falar cada vez mais intensamente da sua própria organização. As empresas falam então interminavelmente de processos. As universidades de governação. Os governos de modelos de participação. E as organizações eclesiais de estruturas. Quanto menos evangelização, mais comissões sobre evangelização. Quanto menos vocações, mais documentos sobre vocações. Quanto menos pessoas vão à igreja, mais longas são as reuniões sobre tornar-se Igreja. Isso soa cínico, mas há um pensamento sério por detrás: a burocracia pode criar a ilusão de actividade enquanto a realidade mostra o contrário. Navega-se sem bússola.
As expectativas que não podem ser satisfeitas
O processo sinodal gerou expectativas. Isso aconteceu sobretudo porque, durante as várias fases de consulta, foram admitidos temas que tocam matérias sobre as quais a Igreja já possui doutrina clara. O diaconado feminino. O sacerdócio. A moral sexual. As relações homossexuais. A relação entre o laicado e o clero. A autoridade eclesial. A descentralização. A posição da mulher. Quando tais assuntos são “discutidos” durante anos, nasce naturalmente a impressão de que também eles podem eventualmente ser alterados. Afinal, caso contrário, não se falaria sobre eles interminavelmente.
Isto cria um paradoxo pastoral. Pede-se às pessoas que expressem as suas expectativas. Subsequentemente, algumas expectativas revelam-se impossíveis de satisfazer sem pôr em risco a continuidade com a doutrina católica. O que acontece então? Desilusão generalizada. A Igreja gerou ela própria expectativas que, em última análise, não pode honrar. Isso não é um ganho pastoral. É uma receita para a frustração.
A protestantização do conceito católico de Igreja
Além disso, numa perspectiva tradicionalista, é visível aqui uma ironia histórica. Um certo número de elementos da cultura sinodal moderna mostram, de facto, semelhanças com desenvolvimentos observáveis nas igrejas protestantes há décadas. Mais ênfase na participação. Mais input administrativo. Mais estruturas consultivas. Mais peso para as comunidades locais. Mais ênfase na experiência individual. Mais discussão sobre a mudança das visões sociais. Menos de dado relativamente à autoridade hierárquica. Em si mesmo, isto não tem de ser tudo errado. Mas a questão histórica é inevitável: Este modelo conduziu a um espectacular reavivamento cristão no mundo protestante? Em grande parte da Europa Ocidental, a resposta é claramente: não. Porque haveria então a Igreja Católica de adoptar precisamente os padrões administrativos e pastorais de confissões que muitas vezes sofreram a mesma secularização ainda mais cedo e de forma mais grave? Um doente raramente recupera tomando o remédio do doente da cama ao lado, que se encontra em estado ainda pior.
A alternativa esquecida: esforçar-se pela santidade
As grandes reformas católicas quase nunca começaram com estruturas. Começaram com santos. Após períodos de corrupção vieram reformadores. Bento, Bernardo, Francisco, Domingos, Catarina de Siena, Inácio de Loyola, Teresa de Ávila, Carlos Borromeu, Francisco de Sales, João Bosco, Teresa de Lisieux, Maximiliano Kolbe, João Paulo II. O seu programa era surpreendentemente simples: tornar-se santo.
Porque um santo possui um poder missionário que nenhum documento de política pode igualar. Uma paróquia com um pastor santo tem um futuro maior do que uma diocese com vinte grupos de trabalho sobre sinodalidade e gestores altamente remunerados. Um convento com dez religiosos fervorosos evangeliza mais do que cem páginas de jargão eclesiástico. Um sacerdote que acredita visivelmente que está diante de Deus no altar pode conduzir mais pessoas à fé do que uma conferência sobre liturgia participativa.
Aqui reside talvez a alternativa que o Sínodo enfatizou insuficientemente: não menos escuta, mas mais santidade. Não menos participação, mas mais conversão. Não menos diálogo, mas mais proclamação.
A Liturgia como teste de fogo
Numa perspectiva tradicional, é além disso notável que a crise da liturgia tenha recebido relativamente pouca atenção central. Porque se se quer verdadeiramente conhecer o estado de uma Igreja, deve-se olhar para o seu culto. Lex orandi, lex credendi. Como se reza, aí se expressa a fé.
Quando os católicos mal compreendem já que a Missa é o sacrifício sacramental presente de Cristo; quando o sentido do sagrado enfraquece; quando o silêncio desaparece; quando os confessionários ficam vazios e a adoração eucarística se torna marginal, então a Igreja não tem um problema de governação. Tem um problema de fé. Uma nova estrutura de participação não pode resolver isso. Nem uma nova assembleia. Uma redescoberta de Deus, talvez o possa.
O paradoxo da participação
O projecto sinodal enfatiza a participação. Mas aqui emerge um paradoxo curioso. As pessoas que participam intensamente nos processos de consulta eclesial não são necessariamente representativas de toda a Igreja. O católico silencioso que vai à Missa todas as manhãs, reza o terço e dá catequese aos netos normalmente não escreve um relatório sinodal. O jovem católico que viaja três horas para assistir a uma liturgia tradicional normalmente não se senta no grupo de trabalho diocesano. A mãe de seis filhos que tenta educar a família como católica pode ter pouco tempo para sessões de escuta. Uma irmã contemplativa não preenche um inquérito. Mas a sua fé pode estar mais profundamente enraizada do que a dos participantes profissionais em assembleias eclesiais. Quem escuta apenas aqueles que se aproximam do microfone pode facilmente esquecer que o Povo de Deus é maior do que o círculo em torno da mesa de reunião.
Sinodalidade ou colegialidade?
Talvez alguma da confusão desaparecesse se se falasse novamente com mais precisão. A tradição católica tem um conceito claro: colegialidade. Os bispos, juntamente com Pedro e sob Pedro, formam o Colégio dos Bispos. Além disso, existem conselhos de presbíteros, conselhos pastorais, sínodos, capítulos, comunidades religiosas e inúmeras outras formas de deliberação. Porque foi necessária uma nova categoria abrangente para isto: a sinodalidade?
Precisamente porque o conceito é tão amplo — é impossível inventar-lhe uma definição — cada um pode entender por ele algo diferente. Para um, significa escuta. Para outro, descentralização. Para um terceiro, democratização. Para um quarto, renovação pastoral. Para um quinto, reforma do ministério. Para um sexto, uma moral sexual diferente. Um conceito que pode significar tudo acaba por não significar nada. Por isso a questão da proporcionalidade é justificada. Quanta energia ainda é preciso investir nisto? Quantas reuniões? Quantas equipas sinodais? Quantos relatórios? Quantas avaliações de avaliações? E, acima de tudo: o que aconteceria se a mesma quantidade de tempo, dinheiro, energia intelectual e atenção episcopal fosse investida na catequese, nos seminários, na educação católica, na liturgia, na confissão, na adoração eucarística, na pastoral do matrimónio e na evangelização directa? Parece-me uma pergunta retórica.
O problema mais profundo: a eclesiologia
Em última análise, portanto, a discussão não é realmente sobre reunir-se. É sobre a questão: O que é a Igreja? É primordialmente uma comunidade que procura colectivamente o que há-de tornar-se? Ou é primordialmente uma realidade divina que recebeu o que há-de ser? A resposta católica só pode ser a última. A Igreja deve converter-se continuamente, mas está edificada sobre os apóstolos. Preserva uma fé que não inventou ela própria. Por isso, toda a sinodalidade deve, em última análise, ser limitada por algo que não está aberto à discussão sinodal: a verdade que Cristo revelou.
O mundo não espera por uma Igreja sinodal
E aqui reside talvez a maior tragédia. O mundo moderno encontra-se numa crise espiritual extraordinária. As pessoas procuram sentido. Os jovens procuram identidade. A solidão aumenta. As famílias desfazem-se. A tecnologia penetra cada vez mais profundamente na existência humana. A pornografia distorce a sexualidade. O materialismo não satisfaz. As alterações climáticas estão a tornar-se uma religião de substituição para muitos. As pessoas têm medo da morte mas já quase não sabem para que vivem. E no meio desse mundo, a Igreja possui algo extraordinário. Possui o Evangelho. Os sacramentos. A Eucaristia. A Confissão. Dois mil anos de sabedoria. A Escritura. Os Padres da Igreja. Tomás de Aquino. Agostinho. Os místicos. Os santos. Uma tradição incomparável de arte, música, filosofia, moral e espiritualidade. E, acima de tudo: Jesus Cristo.
O mundo não espera por mais uma organização que o escute. Já há bastantes dessas. O mundo espera por alguém que lhe diga para que foi criado.
De Emaús a Jerusalém
Talvez o Evangelho dos discípulos de Emaús ofereça, em última análise, o melhor modelo de autêntica sinodalidade católica. Cristo caminha com os discípulos. Escuta, de facto. Pergunta o que os preocupa. Deixa-os falar. A sua desilusão recebe espaço. Até este ponto, todos os manuais sinodais poderiam concordar entusiasticamente. Mas então ocorre o momento decisivo. Cristo não confirma a sua interpretação. Corrige-a. Abre-lhes as Escrituras. Ensina-lhes como compreender os acontecimentos. E finalmente reconhecem-No na fracção do pão. Essa é a sinodalidade católica na sua forma mais pura. E depois, os discípulos não permanecem reunidos interminavelmente em Emaús a avaliar a sua experiência de caminhada. Levantam-se. Regressam a Jerusalém. Saem a pregar. O processo sinodal ficou preso em Emaús, e a questão é se ainda conseguem sair de lá. Estamos tão ocupados a discutir como a Igreja deve caminhar juntos que por vezes esquecemos para onde se dirige.
Em última análise, a Igreja Católica não precisa de um sínodo permanente sobre si mesma. Precisa de santos. Bispos que ensinem. Sacerdotes que rezem. Religiosos que vivam radicalmente para Deus. Pais que transmitam a fé. Jovens que descubram que a verdade é mais do que uma opinião. Liturgia em que Deus está verdadeiramente no centro. Confissões onde os pecadores encontram perdão. Seminários onde se formam homens dispostos a dar a vida a Cristo. Católicos que não perguntam constantemente como a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mas que têm a coragem de convidar o mundo a ser transformado por Cristo. Porque, em última análise, Cristo não enviou a sua Igreja ao mundo com as palavras: Ide e organizai processos sinodais por toda a parte. Disse: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura.” Com isso a Igreja começou. E sempre que foi verdadeiramente renovada, começou aí de novo.
Santo Padre,
Permitam-me concluir esta carta com o mesmo pensamento com que a iniciei: a salvação das almas. Espero e rezo para que, sob o Vosso pontificado, se torne novamente visível com grande clareza que a Igreja não é chamada a discutir interminavelmente consigo mesma, mas a proclamar Cristo; não a reflectir o espírito da época, mas a conduzir o mundo para a vida eterna.
Precisamente do sucessor de Pedro, os fiéis podem esperar que, no meio da confusão do nosso tempo, ele confirme os irmãos na fé. Que nos recorde que a verdade proclamada pela Igreja não é uma posse sobre a qual possamos dispor à vontade, mas um tesouro precioso que recebemos e devemos transmitir intacto. Que dê coragem aos sacerdotes que cumprem fielmente a sua vocação, aos religiosos que dedicaram a vida a Deus, aos pais que tentam educar os filhos como católicos contra a corrente, e aos jovens que, precisamente num tempo de relativismo, anseiam por verdade, santidade, beleza e a aventura radical de uma vida com Cristo.
A minha oração a Vós é, portanto, simples: dai-nos clareza. Quando o mundo fala com incerteza, que Pedro fale claramente. Quando a Igreja se cansa de discussões internas, apontai-nos de novo para Cristo. Quando nos perdemos em processos e estruturas, recordai-nos a nossa missão. Quando tememos proclamar o Evangelho na sua plenitude porque isso poderia ofender o homem moderno, recordai-nos as palavras do próprio Pedro: “Senhor, para quem havemos de ir? As vossas palavras são palavras de vida eterna.”
Santo Padre, escrevo tudo isto com sincera reverência pelo Vosso ofício e com amor à Igreja. A minha crítica ao processo sinodal não nasce do desejo de semear discórdia, mas do medo de que estejamos a perder tempo precioso enquanto tantas pessoas já não conhecem Cristo. A messe é grande. Os trabalhadores são poucos. As igrejas do Ocidente estão a esvaziar-se, enquanto ao mesmo tempo novas gerações parecem procurar de novo a verdade e a transcendência. Precisamente agora não precisamos de uma Igreja hesitante, mas de uma Igreja missionária que sabe qual é o seu tesouro e não tem medo de mostrar esse tesouro ao mundo.
Por isso, rezo para que o Vosso pontificado seja caracterizado por uma renovada concentração naquilo que, em última análise, forma o coração de toda a verdadeira reforma eclesial: Cristo, conversão, santidade, Eucaristia, evangelização e a salvação das almas. Porque, uma vez concluídos todos os sínodos, escritos todos os documentos, dissolvidas todas as comissões e esquecidos os nossos próprios nomes, resta apenas a pergunta que verdadeiramente importa: aproximámos as pessoas confiadas aos nossos cuidados de Jesus Cristo?
Que São Pedro interceda por Vós. Que Nossa Senhora, Mater Ecclesiae, Vos conserve sob a sua protecção. E que o Senhor Vos conceda a sabedoria, a coragem e a determinação paternal para conduzir a sua Igreja na verdade e no amor.
Com sentimentos de sincera reverência, unido em oração,
em Cristo,
+Rob Mutsaerts
Bispo Auxiliar da Diocese de ’s-Hertogenbosch
Um comentário:
Boa tarde Sr. Pedro!
Das estepes frias, empoeiradas e esquecidas do distante Cazaquistão (um país com 97% da população muçulmana...), surge um Bispo Auxiliar chamado D. Athanasius Scneider, uma espécie de profeta do nosso tempo alertando com sabedoria o Papa sobre a grande confusão que vivemos atualmente na Igreja e no mundo. Agora surge mais um outro providencial alerta para todos nós que somos Igreja, vindo nada mais e nada menos da descristianizada e quase atéia Holanda, e através de mais um Bispo Auxiliar, D. Rob Mutsaerts, que humildemente escreve esta bela, necessária e urgente carta. Quanta sabedoria para descrever o problema e ainda propor o remédio de sempre: a Fé!! Realmente Sr. Pedro, como diz a Palavra Sagrada, Deus com sua infinita sabedoria, amor e misericórdia por sua Igreja, não trabalha com a lógica dos poderosos e "sábios" desse mundo. Contra todas as evidências humanas, assim como foi com Davi e tantos outros, de lugares esquecidos e caídos ele suscita homens de Fé para levantar a sua Igreja, desconcertando as nossas cômodas e erráticas certezas. Parabéns pela publicação dessa bela carta!! ah, a propósito: o senhor tem razão. O Bispo gabaritou e com louvor!!!
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