domingo, 30 de agosto de 2026

Não Se Desepere com a Hierarquia da Igreja.

 


O filósofo e teólogo católico Peter Kwasniewski respondeu a uma pessoa chamada Nick Cavazos, que desesperou ao ver Leão XIV se colocar do lado da liturgia "Novus Ordo" do Vaticano II, com as mesmas justificativas dos anos 70. Cavazos considerou que já são 6 papas defendendo o "Novus Ordo" (Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Leão XIV) e que a história mostra que não há volta: o destino da liturgia católica é se perder.

A resposta de Kwasniewski foi excepcional e mostrou essa guerra litúrgica atual sob o ponto de vista histórico da Igreja, apesar de ele ter um olhar mais favorável ao Leão XIV do que eu. A resposta dele deve estar nos nossos corações e nos dar esperança e união com tantos católicos que, ao longo da história, sofreram com os erros da hierarquia da Igreja.

Traduzo abaixo:

O tom de desespero do post de Nick Cavazos é injustificado e parece ser fruto de uma compreensão superficial da história da Igreja e do tempo que uma reforma pode levar.

Alguns exemplos:

A controvérsia ariana durou mais de um século, durante o qual algumas igrejas estiveram nas mãos de arianos e outras nas mãos de católicos. A vida litúrgica devia ser um caos, e sabemos por São Basílio Magno que, em alguns lugares, os fiéis foram reduzidos a adorar fora dos templos, no meio do deserto. Se você tivesse nascido perto do início dessa crise e vivido uma vida longa, não teria visto o seu fim. Mesmo assim, você permaneceu fiel à fé nicena.

A controvérsia iconoclasta também durou mais de um século, durante o qual ícones foram destruídos e cristãos que os veneravam foram torturados e, às vezes, martirizados. Houve uma restauração parcial (comparável ao Summorum), depois uma reversão brutal (comparável à Traditionis) e, por fim, um triunfo final da ortodoxia. Novamente, se você tivesse nascido no início desta crise e vivido uma vida muito longa, não teria visto o seu fim; mas isso não era motivo para deixar de venerar ícones e relíquias.

Adiante, os abusos do pluralismo (ocupar múltiplas dioceses), do absenteísmo (ocupar uma diocese, mas nunca residir nela), da investidura (receber dioceses de um rei ou imperador) e das nomeações por recomendação (um homem receber as rendas de múltiplos cargos sem nunca governar como abade) levaram séculos para serem superados, apesar de terem prejudicado enormemente a Igreja.

No âmbito litúrgico: um papa (Clemente VII) autorizou o novo breviário do Cardeal Quiñones, outro (Paulo III) o aprovou em 1536, e um terceiro (Pio V) o suprimiu em 1568 por considerá-lo uma ruptura com a tradição. A interferência de Urbano VIII no breviário, com o objetivo de satisfazer os admiradores barrocos do latim clássico — algo nunca aceito pelas ordens monásticas —, foi parcialmente desfeita por Paulo VI, quando este restaurou alguns dos textos originais da Liturgia Horarum (embora esse livro também apresente seus próprios problemas). O canto gregoriano permaneceu corrompido por séculos antes de suas melodias serem restauradas pelos monges de Solesmes, com o apoio de Pio X.

Poderíamos citar inúmeros exemplos de como problemas, grandes e pequenos, levaram décadas, e às vezes séculos, para serem resolvidos. A história da Igreja não se desenrola na velocidade de tweets e podcasts; ela se assemelha mais à de Deus: “Mas não ignoreis uma coisa, meus amados, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8).

Isso pode não ser consolador para quem sofre com uma situação litúrgica ruim, mas ajuda a manter as coisas em perspectiva, lembrando-nos de que nosso dever é, por um lado, rezar, fazer penitência e implorar a intervenção do Senhor e, por outro, trabalhar por soluções reais e buscar alternativas melhores para nós mesmos (por exemplo, mudando de um lugar para outro). Dessa forma, reconhecemos que Deus é o Senhor da história e que Ele nos deu inteligência e livre-arbítrio para navegar pela crise.

Por fim, é muito enganoso, pois é vago demais, falar em “6 papas que apoiaram o Novus Ordo”. João Paulo I dificilmente conta. Isso nos deixa com Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV.

A primeira diferença fundamental é que Montini, Wojtyla e Ratzinger foram profundamente influenciados pelo rito romano tradicional que celebraram por anos, de modo que, mesmo quando adotaram o novo rito, o celebraram com olhos e mente enraizados na tradição. Em certo sentido, eles impregnaram o corpo do Novus Ordo com uma alma do Vetus Ordo. Ratzinger, é claro, criticou a reforma litúrgica de inúmeras maneiras que não precisamos abordar aqui.

Bergoglio foi o primeiro papa a ser ordenado no novo rito e a nunca ter celebrado o antigo — e isso se refletiu em todos os aspectos. Embora Prévost sofra com o mesmo desenraizamento litúrgico, ele é suficientemente mais jovem para ter escapado de alguns dos maiores absurdos da Era de Aquário e traz para a liturgia um senso de decoro e respeito pela tradição que, francamente, falta muito em muitos clérigos de sua geração.

Meu ponto é que nada disso se resume a "6 papas que rejeitam radicalmente a tradição e desejam, ideologicamente, impor o novo rito a todo custo". O quadro é bem mais complexo (como seria de esperar): Paulo VI expressou pesar pela perda do rito antigo que ele próprio aboliu e já começou a conceder permissões para que o rito antigo continuasse (sem dúvida, temporariamente, em sua visão); João Paulo II abriu essa porta ainda mais com o indulto mundial; Bento XVI escancarou a porta em 2007 e influenciou um grande número de clérigos que celebram ou admiram o Vetus Ordo, que agora ocupa, manifestamente, um lugar permanente na Igreja.

A saga da “renovação litúrgica” na Igreja está longe de terminar e, se eu fosse apostador, apostaria alto no rito antigo neste momento.



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