Ontem, Leão XIV recebeu a "arcebispa" da Igreja Anglicana, Sarah Mullaly. A primeira mulher líder da Igreja Anglicana desde o nascimento desta versão protestante
A Igreja Anglicana está em crise há décadas e décadas. Quando morei no Reino Unido, em 2009, e resolvia entrar em algum templo anglicano (boa parte deles tinha sido construída pelos católicos), eu me deparava não com templos, mas com feiras de velharias, livros e muita poeira.
E eu nem sei se se pode chamar o Reino Unido de país cristão. Na última Páscoa cristã, o rei Charles III resolveu não se pronunciar, rompendo uma tradição de séculos. Mas tinha se pronunciado para homenagear os muçulmanos no Ramadã.
E a esta seita protestante dentro de um país não cristão que Leão XIV parece querer salvar.
Mas o jornalista inglês Edward Pentin escreveu que a reunião que teve com Mullaly vai colaborar com a discórdia e a mentira, e não com a união cristã em torno da Verdade.
Traduzo abaixo o exclente artigo de Pentin.
A recepção calorosa do Vaticano à primeira arcebispa de Canterbury
Em vez de contribuir para a unidade cristã, a recepção exuberante de Roma a Sarah Mullally provavelmente será um obstáculo para alcançá-la.
por Edward Pentin
A palavra "escândalo" vem do grego skándalon, através do latim scandalum, que significa "pedra de tropeço" — algo que faz com que alguém caia, especialmente em questões de fé e moral.
Foi um termo ao qual o Papa Leão XIV retornou várias vezes na segunda-feira, em seu discurso a Sarah Mullally, a primeira arcebispa anglicana de Canterbury, durante sua visita de quatro dias a Roma.
A desunião entre os cristãos, disse ele, é um desses obstáculos à proclamação do Evangelho. Seria também um escândalo, acrescentou, se os cristãos deixassem de trabalhar para superar suas divisões, por mais intratáveis que sejam.
Tudo verdade. Mas existe outro tipo de escândalo, possivelmente mais grave na busca pela unidade cristã: apresentar como verdade algo que evidentemente não o é e alardeá-lo aos quatro ventos.
Mullally, como todos os seus antecessores anglicanos, não possui ordens válidas. Ela lidera uma comunidade separada de Roma que se afastou ainda mais dos ensinamentos católicos, particularmente nos últimos sessenta anos, desde o encontro histórico entre Paulo VI e seu antecessor, Michael Ramsey. Sua recente nomeação como a primeira arcebispa de Canterbury apenas reforça o julgamento de Leão XIII em Apostolicae Curae (1896), que declarou as ordens anglicanas “absolutamente nulas e totalmente sem efeito”.
Contudo, durante toda a sua visita, Roma recebeu Mullally — que já se descreveu como “pró-aborto em vez de pró-vida” e apoia a bênção de casais do mesmo sexo — com um entusiasmo que transmitia precisamente a impressão oposta. Desde o momento de sua chegada, as autoridades do Vaticano estenderam o tapete vermelho, demonstrando cortesias que iam muito além da hospitalidade diplomática e incluíam gestos carregados de significado eclesial.
Em seu discurso a Sarah Mullally na segunda-feira, o Papa Leão XIII lembrou seu próprio lema episcopal, In Illo uno unum — em Cristo, somos um — e citou o Papa Francisco, que disse que “seria um escândalo se, devido às nossas divisões, não cumpríssemos nossa vocação comum de dar a conhecer Cristo”.
Mas pode haver uma autêntica unidade eclesial em uma comunhão que carece de ordens válidas e promove ensinamentos morais em desacordo com a doutrina católica, incluindo a ordenação de mulheres? Além disso, que serviço Roma presta aos anglicanos ao celebrar publicamente sua primeira líder mulher, omitindo-se, por caridade, de emitir algum tipo de correção fraterna? Reuniões, orações conjuntas (inclusive na Capela Sistina, no ano passado, com o Rei Carlos III, Governador Supremo da Igreja da Inglaterra), bênçãos e gestos litúrgicos — tudo isso abunda, mas jamais há qualquer apelo à conversão doutrinal ou ao arrependimento pelo cisma.
Isso contrasta com as declarações do Vaticano de vinte anos atrás, quando a Igreja da Inglaterra cogitava ordenar mulheres como bispas. O Cardeal Walter Kasper, então antecessor do Cardeal Koch, tratou a questão com a máxima seriedade. Não conhecido por sua ortodoxia, mesmo ele foi enfático ao afirmar que tal passo romperia efetivamente com o entendimento comum da tradição apostólica e tornaria a plena comunhão “inalcançável”, visto que a Igreja Católica sustenta que o episcopado só pode ser conferido a homens.
Contudo, quando a Igreja da Inglaterra ignorou posteriormente esses alertas e aprovou a ordenação de mulheres como bispas, Roma expressou pesar, mas continuou o diálogo sem qualquer mudança evidente de abordagem.
Essa resposta, desprovida de qualquer correção fraterna significativa, persistiu, criando uma atmosfera que transmite a ideia de que grandes acontecimentos, como a ordenação de mulheres como bispas, têm pouca importância para Roma, ou pelo menos não representam obstáculos decisivos no caminho para a unidade. O efeito cumulativo tem sido o de elevar a proximidade simbólica acima da clareza doutrinal — uma impressão que provavelmente apenas encorajou a Igreja da Inglaterra a prosseguir em seu curso atual.
Ao tratar publicamente Sarah Mullally como uma arcebispa legítima — permitindo que ela lidere orações com o Papa, abençoe um arcebispo de verdade na Capela Clementina e oficie vésperas anglicanas em uma igreja romana histórica — o Vaticano está, na verdade, reafirmando sua identidade eclesial “trans” e seu erro.
Mas, para que a unidade seja verdadeira, ela precisa estar fundamentada na verdade. Sem esse alicerce, mesmo os encontros mais cordiais correm o risco de se tornarem, no fim, os próprios obstáculos contra os quais o Papa Leão XIII adverte, em vez de passos rumo à comunhão.
O Cardeal Koch foi contatado para comentar a visita de Mullally, mas não havia respondido até o fechamento desta edição.
3 comentários:
Olá, Dr Pedro.
Tudo isso é triste. Eu continuo convicto de há sim uma deep sociedade atuando para que esses males aconteçam: é coisa coordenada.
É ainda mais duro ver o tal fenômeno da MENTE FRAGMENTADA em pessoas que não poderiam padecer disso; homens como sim, não sou intelectual, e não pude dedicar minha vida a uma formação intelectual plena.
Exemplo: na semana que Trump expos as contradições do papa, os carinhas do Centro DB se escandalizaram com a "ousadia" de TRump, quando ele fez o que homens de Tradição deveriam fazer. De repente, ontem publicam um vídeo com a capa dizendo ""O que está acontecendo em Roma"? Putz! É pra lascar, não é? Seria o meme do Pio-pio ("acho que vi um gatinho") ganhando vida real nos homens de "inteligência" que editam, publicam e vendem livros para deixar os católicos "mais inteligentes" e moralmente "mais preparados"?
Dr Pedro, um segundo e último comentário aqui. Na verdade é um pedido. Antes, deixo as seguintes considerações:
Corrija-me se eu estiver errado, pois são observações muito rasas de minha parte, mas que faço a partir do que considero um vazio da Religião Católica nas grandes decisões mundiais:
Tenho percebido (minha opinião) que ao menos desde Obama, as grandes decisões mundiais e realmente geram grandes impactos tem vindo duas frentes: uma que trás terror e maldade para a humanidade causada por certos homens perversos e sociedades poderosas vis e anticatólicas; e outra por homens que são cristãos mas não católicos, incluo aqui Trump (em ação global e local, digo em seu país).
No caso do Brasil, percebo que os cristãos das seitas dos evangélicos praticamente já exercem grandes impactos na política e economia, foi com Bolsonaro e atualmente muitas outras pessoas em sua maioria dessas seitas. Mas essas pessoas são moralmente frágeis e tendem superstições e fanatismo, pois ignoram/desprezam a profundidade do Catolicismo na formação do nosso povo e História.
Há uma terceira frente, mas parece agir numa espécie de limbo que não alcançam as grandes massas, sociedades e instituições, mas que entendo ser ações de grandes importâncias que considero ser um tipo de mistério que deve estar sob os olhos da Providência. Incluo aqui homens como o padre o autor daquele livro "The Disastrous Pontificate".
Até Bento XVI parece que havia certa ação da Igreja que ainda chamava para si a responsabilidade conduzir a humanidade, como quando ele orientou os católicos a não votar em políticos que promoviam a união não natural; acho que foi entre 2003 e 2025; não lembro bem; foi um alvoroço. Infelizmente não existia um Trump para ajudá-lo.
Agora o pedido:
Gostaria muito que você trouxesse aqui no blog alguma análise, ou abordagem histórica de alguma leitura sua particular sobre o seguinte ponto: o que realmente colocou nossa nação praticamente sem a presença católica nas grandes decisões? O que promoveu essa terrível queda onde o alto (e até o baixo clero) não abre a boca contra tanta crueldade contra a sociedade, de tal forma que em todo o Brasil (ainda mais no nordeste) o povo está entregue nas mãos de gente tão perversa, a começar por esse modelo de república vigente hoje? Praticamente toda autoridade administrativa e eclesiástica da Igreja ou está contaminada ou apoia a política socialista e administração corrupta do país.
Caro Adilson, suas palavras carecem de avaiar muitas coisas. Em primeiro lugar, os verdadeiros católicos serão sempre minoria em qualquer lugar, e eles não serão ouvidos pela grande massa. Em segundo lugar, sobre política, os Estados Unidos já tiveram presidentes ditos "católicos" (Kennedy e Biden) mas eles foram péssimos em vários aspectos inclusive pela falta de catolicismo neles. Em terceiro lugar, Cristo separou o Estado da Fé, o que importa para o católico é aceitar a cruz e procurar se salvar, se entrar na política o objetivo continua sendo esse, ao se fazer política. O mundo já tiveram grandes lideres católicos, em geral, eles não conseguem ficar muito tempo no poder, exatamente porque o mundo não é cristão e a maioria, mesmo os ditos católicos, votam em péssimos políticos (ver os católicos elegendo o Lula). Bolsonaro também dito católico mas fez péssimo governo em termos católicos e ainda colocou pragas no STF. Finalmente, na história do Brasil os líderes, quase em 100% dos casos,e ram péssimos católicos. Pedro I era maçônico e Pedro II era simpatizante e ainda mandou prender padres que condenavam a maçonaria. Então, basicamente a semente da fé que caiu no Brasil não germinou no povo em geral, e o povo é que elege os políticos. Não se preocupe se um grande livro bão atinge as massas, um livro de Deus normalmente não vai atingir. Não conheço nenhum livro específico sobre o assunto. É um ótimo tema, mas o autor teria que saber muito de história e teologia. Abraço.
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