segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Por Que Trump Descartou Maria Corina Machado para Venezuela?

 



Na entrevista que Trump deu logo após capturar Maduro há muito a ser debatido em termos políticos, econômicos e éticos. Mas duas coisas foram mais impressionantes, para mim: 1) Trump disse que ia comandar (to run) o país por enquanto; 2) Descartou a líder oposicionista Maria Corina Machado para liderar o país e ainda disse que ela não era respeitada na Venezuela, apesar de ser uma "ótima" (nice) mulher.

Sobre o primeiro ponto, não há caso histórico de os Estados Unidos derrubar o poder de um país e colocar um americano no país para liderar. Em todos os casos, mesmo quando derrotaram o Império Japonês ou Saddam Hussein, quem ficou no poder áfoi alguém do próprio povo, mesmo que deva seguir ordens dos Estados Unidos. No caso da Venezuela, os últimos acontecimentos apontam nesse sentido, e o Partido Socialista Bolivariano continua, em tese, no poder, mesmo sabendo que o governo de Maduro não era reconhecido por inúmeros países. Nem mesmo o governo Lula reconheceu Maduro como presidente eleito nas eleições de 2024. Apenas Rússia, Cuba, China, Irã, Bolívia e Nicarágua.

Então, o debate sobre a Venezuela tem que começar por aí. Maduro não era presidente da Venezuela para a imensa maioria dos países, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia. A captura de Maduro foi, legalmente, a de um líder político, possivelmente narcoterrorista, mas não de um presidente de um país, mesmo que o movimento político bolivariano iniciado por Chávez esteja no poder há 27 anos. Não sendo presidente, ele não tem imunidade diplomática.

Se não era presidente, os Estados Unidos não capturaram a autoridade de um país. Os Estados Unidos atacaram as forças armadas da Venezuela para capturar Maduro. Isto foi um ato de guerra? Ou é apenas um ataque ao território de um país para capturar um tirano sem autoridade legal que roubou ativos dos Estados Unidos e foi condenado internacionalmente por isso? Acho que dificilmente os critérios de guerra justa se aplicam ao caso.

A mulher de Maduro, Cilia Flores, também foi capturada. Ela se envolveu com o poder como advogada de Chávez. Maduro era apenas um motorista de caminhão, ela é advogada e já tinha filhos quando se juntou a Maduro. Ela virou política. Há um caso conhecido em que dois sobrinhos de Flores foram presos com centenas de quilos de cocaína e condenados nos Estados Unidos a 18 anos de cadeia, mas Biden perdoou. Ela sofre pessoalmente também acusações de tráfico de cocaína. 

Há uma acusação de 25 páginas, tornada pública no sábado, que acusa Maduro e outros de trabalharem com cartéis de drogas para facilitar o envio de milhares de toneladas de cocaína para os EUA. Eles podem pegar prisão perpétua se forem condenados. Maduro e Flores estão sob sanções dos EUA há anos, o que torna ilegal para qualquer americano receber dinheiro deles sem antes obter uma licença do Departamento do Tesouro. A acusação alega que Maduro e Flores ordenaram sequestros, espancamentos e assassinatos de pessoas que lhes deviam dinheiro do narcotráfico ou que prejudicavam suas operações de tráfico de drogas. Isso inclui o assassinato de um chefe do narcotráfico local em Caracas, segundo a acusação.

Mas por que Trump descartou a ativista e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado?

Como a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, muito popular na Venezuela, a ponto de vencer ou eleições, não é respeitada?

Para responder a essa pergunta, creio que os venezuelanos, mais interessados no assunto e que possivelmente conheçam melhor os políticos, devem ter muitas respostas. Mas vou analisar aqui a questão, a partir de um ponto de vista ético-histórico, sem personalismos e sem analisar questões econômicas (petróleo, etc.). 

Sobre a questão do petróleo, apenas ressalto que esta não é a mais importante. Sim, tem um impacto econômico e geopolítico global, mas não é a mais importante. Sim, motivou e motiva a queda de Maduro, depois que Hugo Chavez forçou a expropriação de duas companhias americanas (ExxonMobil e ConocoPhillipsem) em 2007, e a justiça internacional condenou a Venezuela a pagar indenizações, coisa que o país nunca honrou, a questão ainda está pendente e Trump quer resolver.   A Venezuela é dita ter a maior reserva de petróleo do mundo, o que interessa a todos os players globais (incluindo China, Rússia e Irã), mas os investimentos necessários para extrair esse petróleo são imensos. Além disso, vivemos a época da tecnologia artificial e os Estados Unidos possuem bastante petróleo.

A questão ética é muito mais importante. No fim, o que importa é em que base ética viverá a população da Venezuela. Por exemplo, sob qual ética passou a viver o Japão após a Segunda Guerra sob o domínio político dos Estados Unidos? Sob qual ética passou a viver o Iraque após a queda de Saddam Hussein sob o domínio dos aliados? Essas questões são bem mais relevantes do que a relação comercial que surgiu depois da queda dos regimes.

Os Estados Unidos atacaram o mausoléu do Hugo Chavez, coisa que não precisavam fazer. Gastaram rios de dinheiro ao fazer isso. O que ressalta mais ainda a importância da ética na questão. O mausoléu é um símbolo ético, social, político e ideológico. Até hoje, a cova de Karl Marx é visitada, assim como a cova do Alan Kardec é regularmente visitada pelos espíritas. Essas covas mantêm um tipo de ética.

Normalmente, um país é reconhecido por seus líderes políticos, mas existem muitos que comandam um país e não estão na mídia e, por vezes, sustentam os líderes políticos. Por exemplo, pensa-se no Brasil que Lula e o Alexandre de Moraes comandam o país, mas há muitos financiadores deles que estão ocultos e, por isso, podem mudar de lado político com mais facilidade. Na política, uma das regras é não confiar em ninguém.

No caso da Venezuela, o mundo conhece apenas o Maduro e a Corina Machado, mas quem são os outros políticos e financiadores de políticos (que podem ser narcoterroristas) que sustentam quem está no poder?

Vamos ver a posição dos Estados Unidos.

O secretário de Estado, Marco Rubio, anda a dar entrevistas sobre a Venezuela e tocou na questão da Maria Corina Machado. 

Ele disse: “María Corina Machado é fantástica. Conheço-a há anos e ela personifica todo o movimento… Mas estamos lidando com uma realidade. Queremos uma transição para a democracia, mas a maior parte da oposição está exilada e temos que pensar nas próximas duas ou três semanas, dois ou três meses…Os primeiros passos envolvem salvaguardar os interesses nacionais dos EUA e, ao mesmo tempo, beneficiar o povo da Venezuela… Chega de narcotráfico. Chega de presença iraniana/do Hezbollah lá. Chega de usar a indústria petrolífera para enriquecer todos os nossos adversários…”

Pela resposta dele, os Estados Unidos, primeiro, querem resguardar seus interesses nacionais, políticos e financeiros, garantir alguma liberdade ao povo venezuelano e, depois, lidar com as questões eleitorais da Venezuela. Ou querem apenas garantir os interesses nacionais dos Estados Unidos e deixar que os venezuelanos decidam o que fazer com a futura liderança política. Não vão colocar ninguém no poder.

Outra coisa, muita gente na mídia anda a relacionar a queda de Maduro com a derrubada de Saddam Hussein no Iraque e outros casos no Oriente Médio. Rubio chamou esses analistas de "palhaços". 

Ele disse: "A maioria dos especialistas que aparecem na televisão... eu assisto a esses especialistas e é uma palhaçada, entendeu? São pessoas que dedicaram toda a sua carreira ao Oriente Médio ou a alguma outra parte do mundo porque era lá que tudo acontecia. Muito poucos deles sabem ALGUMA COISA sobre a Venezuela, o hemisfério ocidental. A Venezuela NÃO se parece em NADA com a Líbia, não se parece em NADA com o Iraque, não se parece em NADA com o Afeganistão, não se parece em NADA com o Oriente Médio, a não ser pelos agentes iranianos que estão por lá, conspirando contra os Estados Unidos, entendeu? Esses são países ocidentais com longas tradições entre seus povos, em nível cultural e com laços com os Estados Unidos, então não há nada parecido.Então, acho que as pessoas precisam parar de comparar alhos com bugalhos, as coisas do Oriente Médio com as coisas do hemisfério ocidental."

Achei uma boa resposta dele. Sim, especialistas de relações internacionais nos Estados Unidos costumam não saber nada sobre o que ocorre na América Latina e nem se importam com a região em termos políticos ou éticos. Além disso, sim, o Oriente Médio, com sua ética islâmica, não parece em nada com a América Latina.

Então, qual é a minha opinião?

Bom, acho que realmente os Estados Unidos demonstraram, desde o início, que queriam apenas o Maduro; mesmo as lideranças militares foram deixadas intactas no ataque de 3 de janeiro. Nem mesmo outras bases militares da Venezuela, fora de Caracas, foram atacadas.

Na Venezuela, depois de discursos que reclamaram da ação dos americanos, a vice-presidente, Delcy Rodriguez, que não é reconhecida internacionalmente, já disse que quer cooperar com os Estados Unidos:


Se não olharmos para o Oriente Médio e sim para os casos latino-americanos de envolvimento dos Estados Unidos, mais ou menos reconhecido, o que podemos extrair da ação dos Estados Unidos?

Há vários casos, como o caso de Pinochet, que era próximo e amigo de Allende, mas o atacou e tomou o poder. Mas talvez o caso mais próximo da Venezuela seja o caso de Rafael Trujillo, ditador da República Dominicana, e Juan Bosch, seu opositor. Trujillo era perseguidr de comunistas, esquerdistas e de haitianos. Juan Bosch era de esquerda, mas era anticomunista; não era um Fidel Castro. Depois do assassinato de Trujillo, em 1961, com suposto apoio dos Estados Unidos, podia-se esperar que Bosch, que era muito popular, assumisse o poder. Mas não, o fantoche de Trujillo, Joaquín Balaguer, que estava no poder, continuou no poder junto com o filho de Trujillo, até sofrer um golpe. Bosch depois se elegeu, em 1962, mas não ficou nem um ano no poder, apenas 7 meses. Suas ações assustaram o mundo da Guerra Fria, que tinha medo de comunistas, e o país sofreu outro golpe.

Seguramente, Bosch não tinha apoio das forças armadas.

Depois de 27 anos com socialismo bolivariano, muito dificilmente Corina Machado tem apoio das forças armadas da Venezuela. Sem falar das milícias chavistas que assolam o país.

Em política, a estabilidade militar precede a democracia.

Talvez o governo Trump, além de seus interesses políticos e financeiros, que parecem assegurados com a vice de Maduro, saibam que precisa que o país fique estável militarmente e as ruas tranquilas, também para perseguir os narcoterroristas.

Corina Machado, de longe, me parece fantástica e justa. Mais vale ela eleita do que imposta pelos Estados Unidos. Mas quem garante que a ética do povo da Venezuela irá lhe eleger e respeitar? Quem garante que os partidos políticos corruptos venezuelanos irão respeitá-la?. A democracia costuma não eleger os melhores. E sim os mais próximos da ética do povo, seja ruim ou boa. Por isso mesmo muitos pensadores, como Platão,  Aristóteles e Kant não gostavam de democracia.


Um comentário:

Eduardo Ramos disse...

Com relação à operação na Venezuela e a captura de Maduro, me ocorreu um paralelo entre Chesterton em seu livro, O HOMEM ETERNO, a realidade da daquele país e a derrota de Cartago nas guerras púnicas, comandadas por Anibal. Para Chesterton “ Cartago caiu porque era fiel à sua própria filosofia e porque tinha levado às suas últimas conseqüências a sua própria visão do universo. Moloch tinha devorado os seus filhos”. Os Molochs contemporâneos são: as drogas e o narcotráfico, a inversão de valores, a negação do direito natural, a destruição das famílias e tudo aquilo que compõe o wokismo. Na verdade, eles já foram destruídos. Daí, apesar de ainda não ter lido o seu livro Teoria e Tradição da Guerra Justa, atrevo-me a opinar que a Misericórdia Divina está agindo.